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Entrevista

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O universo do controle de tráfego aéreo é cheio de peculiaridades. Para ajudar-nos a entender mais de perto a rotina de trabalho dos profissionais que orientam os vôos, entrevistamos Antônio Moreira, que exerce a profissão há 9 anos como civíl, atuando no Aeroporto Jorge Amado em Ilhéus, Bahia.

 

Junto com você, são quantos controladores?
Em Ilhéus nós temos 14 controladores.

Todos ao mesmo tempo? Como é a rotina?
A rotina no controle em Ilhéus é a seguinte: São duas pessoas por turno, no mínimo, vinte e quatro horas por dia. São turnos de 6 horas.

Em média, quantas aeronaves são controladas por turno?
Olha, eu não tenho idéia da quantidade de aeronaves que nós controlamos. Mas em Ilhéus, por exemplo, a gente controla as aeronaves que pousam e decolam de Ilhéus, posam e decolam em Comandatuba, na área de Ilhéus. E também as aeronaves que cruzam o espaço de Ilhéus, por exemplo as aeronaves que vão de Porto Seguro pra Salvador, de Porto Seguro para Aracajú, de Salvador pro Galeão do Rio de Janeiro, e de Salvador pra Vitória. Então, todas aquelas que não pousam em Ilhéus, mas que cruzam a nossa área, a gente controla. Eu acho, não tenho certeza, mas acho que o movimento em Ilhéus não é muito grande não. Dá em torno de acho que 50, 60 aeronaves por dia, contando as vinte e quatro horas. Por aí, em torno disso.

E você considera o céu na área onde você trabalha, tranqüilo? É seguro?
Veja bem, quanto à questão da segurança, sim. Controle de tráfego aéreo é uma profissão assim, de especificidade, que você trabalha com segurança. Existe uma rigidez, existe uma cobrança muito grande. Todo mundo que trabalha nessa área faz um curso de formação, e então há um cuidado. Há avaliações constantes que são feitas, há treinamento. Então, tudo o que é feito, é para que realmente haja traquilidade na prestação de serviço, haja segurança. Tudo o que se faz no trafego aéreo é pensando na segurança das pessoas e também do patrimônio, que são as aeronaves.

Considera um herói a pessoa que exerce esta profissão?
Não, herói não. Eu acho que pra fazer esta profissão você tem que ter características específicas. Tanto que quando você faz o concurso, além de passar numa prova, que você faz, você tem que passar num psicoteste que avalia as suas habilidades. Então, você faz isso, e tem também um curso de formação de dez meses. No caso da gente que é civil, faz dez meses o curso de formação em São José dos Campos, na Escola da Aeronáutica, e quem é militar, faz concurso pra sargento e vai pra escola especialista da aeronáutica , e estuda dois anos lá, que tem a parte militar também. Muita gente que passa no concurso, na prova inicial não passa no psicoteste, e chegando no curso também não é aprovado. Porque o curso também é um curso puxado, a pessoa é avaliada toda semana, e tem períodos que todos os dias. Então não pela questão de ser herói mas, pela questão de ter características específicas que são cobrados e todas as pessoas tem.

Que características são essas que o controlador de tráfego aéreo tem que ter?
Controlador de tráfego aéreo tem que ter um equilíbrio emocional considerável, para agüentar situações de pressão, de stress, saber administrar isso e continuar raciocinando e mantendo seu serviço de forma correta, e também tem que ter espírito de liderança porque você manda o piloto fazer, você diz pra ele o que ele tem que fazer. Dá orientação e ele tem que seguir, então você tem que ter realmente espírito de liderança. Tem que ter visão espacial, porque nem todos os controles de tráfego aéreo tem radar, como Ilhéus, por exemplo, você tem que controlar as aeronaves sem ver, mas saber onde elas estão, então são características que um controlador tem que ter. São características que não são comuns á todas as pessoas.

Para tanta exigência, o salário é compatível? Considera digno?
Veja bem, no Brasil, o controle de trafego aéreo é uma função considerada de segundo grau. Então, quando você compara com outras funções de segundo grau e os salários que são oferecidos até na Iniciativa Privada ou nos Órgãos Públicos, eu diria que o salário ele é, não que seja excelente, mas relativamente bom. Até porque na Infraero você tem também outros benefícios que são agregados ao salário. Agora, quando você vai pra aquilo que se faz na profissão, e o que também se paga em outros lugares, outros países, realmente a situação de salário do controlador no Brasil não é muito boa. Tá aquém da função que é exercida, da instabilidade que se tem. Das conseqüências jurídicas que se pode ter. O código civil prevê a culpa quando a pessoa age não com intenção de prejudicar, mas prejudica sem intenção. Que é o nosso caso como profissional: você pode cometer um erro, e vidas aí podem ser ceifadas. E o código penal prevê isso aí, a questão de que tem as penalidades pra quem comete este tipo de falha, mesmo não tendo intenção. Não sei se tem casos no Brasil de alguém ter ido para a cadeia por causa de culpa, mas você pode ser condenado, tem toda uma penalidade que pode vir por um erro que a pessoa comete. Então eu acho que a realidade salarial ainda é aquém da profissão, até porque a profissão não é regulamentada no Brasil, ela não existe. Ela existe de fato, mas de direito não. A maioria dos controladores são sargentos da FAB, são militares da FAB. São controladores, mas primeiro são sargentos da FAB. E nós que somos civis não temos uma regulamentação da profissão, então essa questão do salário poderia ser mudada com regulamentação da profissão.

Porque você decidiu seguir a carreira?
Na verdade, quando eu fui fazer o concurso, acho que isso não aconteceu só comigo, tenho relato de vários colegas que dizem que aconteceu isso. Quando fui fazer o concurso eu não sabia o que na verdade fazia a profissão direito. Um colega me falou do concurso que era pra Infraero, eu fui fazer e só depois de aprovado eu vim saber. Até porque na minha época o concurso não era só pra controlador, era pra outros cargos que tem na navegação aérea, e o psicoteste é que determinava pra que cargos você estava apto. Eu não sabia exatamente o que fazia o controlador de trafego aéreo. Inclusive até pouco tempo antes de ir pro curso eu não sabia direito e passei a ter uma noção. E só lá realmente eu vim saber o que fazia a profissão, Então no meu caso não foi por paixão pela profissão por conhecer não. Na verdade foi a oportunidade e um concurso que me interessou e depois que eu vim saber o que fazia exatamente.

Já passou por alguma situação de risco, ou presenciou algum colega passando?
Veja bem, eu acho que todo mundo que trabalha com controle de trafego aéreo um dia ou outro passou por uma situação que houve uma certa tensão ou risco para as aeronaves. Ainda que não tenha sido você quem contribuiu pra aquilo, mas a situação contribuiu e você tava ali, você presenciou. Nós já tivemos situação até noticiada de uma aeronave que decolou de uma determinada localidade pra outra e passando aqui em Ilhéus tava com problema numa turbina, resolveu não continuar a viagem e pousou em Ilhéus. Já tivemos outra situação de uma aeronave, com tempo ruim, e a aeronave tava com pouco combustível e pousou numa situação complicada, bateu a asa no chão. Os passageiros se assustaram, mas ninguém se machucou, e também não houve nada de grave com a aeronave. Foi questão ligada a tempo, o tempo tava ruim e ele não tinha combustível para ir para a outra localidade, ai teve que pousar de qualquer jeito. Historias deste tipo são várias. Sempre tem alguma coisa assim que acontece.

Concorda que considerem a profissão mais estressante?
É aquela questão, eu não posso determinar se é a mais estressante ou não, porque teria que se avaliar também a situação de outras profissões. Já disseram que mais estressante que controlador de trafego aéreo é desativador de bomba. Dizem isso, mas eu sei que é uma profissão extremamente estressante, porque envolve situações dinâmicas, algumas complicadas porque você trabalha com aeronaves de diferentes características, diferentes performances, com situações diferenciadas. Você trabalha com vidas, a vida das pessoas, interesses variados, pessoas que querem cumprir horário, pessoas que tem compromisso, empresas aéreas e aeronaves particulares. Tem obrigação de seguir o regulamento e manter as aeronaves voando de forma ordenada, de forma segura. Às vezes você ta na situação de tráfego nenhum e de repente, começam a chamar vários aviões e várias situações ao mesmo tempo e complica bastante. E outra coisa também que no nosso caso, pode ser um causador de stress é a alternância de horários que se trabalha. Porque nós trabalhamos num turno de seis horas, mas com horários alternados. A pessoa que trabalha, por exemplo, num dia as 18h sai ás 24h, volta no outro dia ás 12h e sai ás 18h. Então cada dia você trabalha num horário diferente isso e um fator causador de stress porque você não tem horário para dormir. Então isso pode ser causador de stress. Inclusive tem estudos de como afeta a saúde do controlador não só o stress do trabalho, mas a alternância de horário.

Há outros fatores que pra você deveriam mudar?
Eu acho que deveria ser objeto de estudo a questão da escala. Horário fixo, uma folga maior, não sei exatamente como poderia ser. Outra questão viria com o reconhecimento e regulamentação da profissão. Segundo, eu acho de bastante importância. Algumas profissões têm o que nós chamamos de aposentadoria especial, que é um tempo de serviço menor. Os professores têm isso, acho que os militares também têm. Hoje nos somos submetidos á CLT que é uma Legislação que trata da mesma fora o controle do tráfego aéreo quanto o cara que trabalha no açougue, na padaria, não desmerecendo essas pessoas, mas são serviços diferentes. Então, talvez o camarada possa trabalhar no açougue, na padaria por 35 anos, mas não sei se vai poder conseguir fazer isso controlando avião. Se depois de 35 anos, o cara vai ta fazendo bem aquilo ou tendo saúde para fazer. Então eu acho que era de se esperar que se tivesse na regulamentação uma aposentadoria especial. Até por causa da exigência que se tem para exercer a profissão. Com o tempo a pessoa vai adquirindo doenças não só ligadas ao serviço, mas também á idade. E ela não terá mais o certificado de capacidade física para exercer a profissão. Vai se fazer o que com aquela pessoa? Eu acho que tem que se pensar num tempo menor de serviço. Então passa isso tudo aí na regulamentação da profissão. A questão da escala, de tempo de serviço, aposentadoria, de folgas, os horários de trabalho, questão salarial que eu acho também importante. Uma questão que também deve se pensar é no caso de um controlador de envolver em um incidente por falha, por erro, pensar também na assistência jurídica, por que a pessoa tem que se defender também.

E sobre este caos aéreo que vivemos recentemente, em sua opinião, a mídia aumentou o problema, ou ele é mostrado como realmente é?
Eu acho que a questão do caos aéreo trouxe pras pessoas o conhecimento de que existe o profissional que controla os vôos e tudo. Que os aviões não voam aí por vontade própria, que existe um sistema que controla, tem uma estrutura por trás disso. É óbvio que quando existe um fato desse a mídia procura supervalorizar algumas coisas. Então houve coisas que sempre existiram, sempre aconteceram, mas que naquele período se deu importância demais. Atraso de vôo sempre houve, ainda existe hoje, naquela época obviamente atrasou mais. Sistema de radar sempre caiu; aeronave, em algumas situações, uma passa perto da outra. Situações que acontecem, e que na época se supervalorizou porque as pessoas estavam sendo prejudicadas. É óbvio que a camada da população brasileira que viaja de avião é a camada de um poder aquisitivo maior. Então, quando um problema atinge essas pessoas, e o poder aquisitivo conta pra caramba, a mídia dá uma importância maior. Se fosse com uma camada mais pobre da população não se teria essa importância toda. 

Como agiam os controladores na época?
O que os controladores estavam fazendo naquele momento foi seguindo á risca o regulamento. Vários momentos por uma questão de pressão eles deixavam de seguir o regulamento para cumprir a demanda de trafego, e naquele momento eles resolveram que não iriam correr mais o risco. Por isso que os vôos começaram a atrasar e tudo.
Houve um dia que houve uma paralisação á noite, por uma hora, e na verdade só houve um órgão que parou e os outros apenas ficaram impossibilitados de trabalhar porque as aeronaves passavam na área desse órgão e não tinha como as aeronaves decolarem.
Fora isso, o serviço de controle de tráfego aéreo foi prestado em todo período de caos aéreo, claro que seguindo mais rigorosamente o regulamento na época, porque os controladores estavam com medo em relação ao que tinha acontecido lá com o acidente da GOL e o Legacy. E os outros fatores que não tinham nada a ver com o controle de trafego aéreo, é radar que caiu, problema de rádio, era tudo problema técnico, telefonia que cai. Que aconteceu naquela época, acontecia antes e até hoje acontece. Só que hoje acontece e ninguém fica sabendo, porque não ta mais na mídia e na época tava.

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